Introdução ao Conto “O Presépio Árabe”
O Presépio Árabe é um conto que cruza história, fantasia e tradições, revelando um encontro improvável entre culturas, crenças e saberes. Neste conto, o presépio árabe torna-se o símbolo central de um jogo de xadrez decisivo, capaz de definir o destino de uma cidade sitiada.
O Presépio Árabe: Leitura Integral do Conto

A Menina Nada e a Cidade Sitiada
Nada era uma menina que gostava de jogar xadrez e de resolver problemas insolúveis. O seu pai era o grande sultão Amin, filho de uma princesa árabe que nascera no Al-Andaluz. O avanço dos reis cristãos fez com que todos os árabes se reunissem numa cidade com vista para o mar. Depois de muitas batalhes travadas e de inúmeros acordos falhados, chegou o dia de Consoada, e os exércitos do rei cristão encontravam-se às portas da cidade sitiada.
O Desafio de Xadrez entre o Sultão e o Rei Sábio
Nada, que era amiga de cristãos e de mouros e estudara em Alexandria, sabia que o mais sábio dos reis cristãos gostava imenso de jogar xadrez. A princesa propôs então ao sultão o seguinte acordo: seria disputado um jogo de xadrez entre o sultão e o rei sábio, no pátio da medina. Se o rei sábio vencesse a partida, a cidade seria entregue aos cristãos ─ mas o tabuleiro ficaria com o sultão. Se, pelo contrário, o sultão triunfasse, as peças de cerâmica vidrada e o tabuleiro de mármore ficariam para o rei sábio.
A cidade, no entanto, só seria abandonada pelos mouros quando todos tivessem atravessado o mar em direção ao Norte de África. Havia, porém, um pormenor muito importante: as figuras do tabuleiro de xadrez faziam parte de um presépio que a princesa comprara num bazar de Granada. O rei sábio aceitou a proposta, ainda que os seus exércitos estivessem ávidos pelos tesouros guardados dentro das muralhas.
O Xeque-Mate e o Destino da Cidade
O dia de Consoada chegou ao fim e a partida de xadrez parecia interminável. Se o desafio terminasse empatado, o desfecho seria decidido no campo de batalha. Foi então que o rei sábio, perante a impaciência dos seus homens, fez algo deveras incompreensível: deixou que o sultão tomasse o boi e o burro e fizesse xeque-mate a São José.
Os exércitos cristãos ficaram inconsoláveis, deixando cair lanças e espadas por terra. O rei recolheu o tabuleiro e o presépio árabe e levou-os de volta para a sua tenda de pano. A cidade sitiada rejubilou de alegria e deu vivas a um menino árabe que acabara de nascer numa pequena divisão de estuque e madeira. O rei cristão levou depois o presépio para as montanhas que guardavam o seu castelo. Diz-se que jogava xadrez com ele sempre que se sentia entediado.

A Partida dos Habitantes da Cidade Vermelha
No Dia de Reis, os habitantes da cidade vermelha despediram-se dos lavradores, pastores e pescadores que encontraram pelo caminho. Abandonaram o magnífico palácio com vista para o mar. Quando todos os árabes subiram aos conveses dos barcos, não puderam deixar de reparar na princesa Nada. A menina trepara ao mastro e gritou a plenos pulmões:
— Que reis e sultões saibam amar o menino que venceu sem ter lutado!
A Revelação da Princesa Nada
Ao descer do mastro alto, o sultão perguntou-lhe:
— Onde estava esse menino? No tabuleiro?
A menina sorriu e pousou a palma da mão sobre o peito do pai.
— Aqui, meu pai. Onde moram os teus sentimentos.
O sultão abraçou a filha e chorou ao ver a cidadela desaparecer no horizonte longínquo.
Sérgio Mendes, 25 de novembro de 2025
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